Cardoso Moreira e São Fidélis estão no topo das cidades em que a viticultura mais cresce na Região

Já se foi o tempo em que ir a um supermercado, feira ou hortifruti na região e comprar uvas frescas sem conhecer a origem delas era uma atividade comum. Hoje, a fruta que está exposta nas bancas ou guardada na geladeira do consumidor vem de muito perto. Por incrível que pareça, a cultura da uva em áreas do Norte, Noroeste e Baixada Litorânea do estado do Rio de Janeiro está acima da média nacional.
Todo esse potencial é graças ao clima tropical, a despeito do período de seca que compromete a agricultura. A viticultura na região começou há cerca de 15 anos com o produtor rural Antônio Brandão, no município de Cardoso Moreira. Ousado, ele desmitificou que a uva seja produzida exclusivamente em região fria e começou o processo de plantio por enxerto da uva de mesa da espécie Niágara rosada.
Atualmente, ele colhe até 80 toneladas por ano na área produtiva de mais de 3 hectares. O produto é vendido para uma rede de supermercado em Campos e em comércios menores no Noroeste do estado. Ele decidiu investir na produção de uva depois que se aposentou. Hoje, aos 78 anos, comemora os resultados. “Eu pesquisei sobre o plantio, busquei técnicas e passei dois anos viajando para o Chile, Sul do país, Nordeste e São Paulo para conhecer as técnicas e fui aperfeiçoando de acordo com a realidade da nossa região. Sou persistente e faria de novo se fosse preciso, mas de forma diferente”, garante. Hoje, Antônio emprega dez pessoas e colabora com a instalação do mesmo processo, em Linhares, no Espírito Santo.
Assim como as parreiras do seu Antônio, cerca de outros 15 vinhedos foram implantados em cidades como São Fidélis e Carapebus, no Norte do estado; Bom Jesus do Itabapoana, São José de Ubá, Cambuci e Varre-Sai, no Noroeste e Rio das Ostras, na Baixada Litorânea e deram certo. Em Italva, no Noroeste, a uva não vingou, apesar das inúmeras tentativas.
Se a média de produção nacional da uva é de 25 toneladas por hectare, o engenheiro
agrônomo Leandro Hespanhol, já chegou a colher até 40 toneladas em uma área menor
que um hectare. O vinhedo dele fica em São Fidélis. Porém, somente metade dessa produção existe hoje e o motivo é a seca. “Sem chuva, a uva não desenvolve. Investir em sistemas de irrigação como poço artesiano, por exemplo, ainda é muito caro”.
No entanto, Hespanhol comemora a rentabilidade que a uva traz e explica o motivo disso. “Nossa facilidade é a venda direta. Ou seja, sem atravessador, podemos vender o produto por um preço mais caro para o empresário e lucrar com isso. Outro fator que leva rendimento ao produtor local é o fato de a uva Niágara rosada frutificar em quase todas as estações do ano no estado onde não há inverno rigoroso. “Portanto, quando as regiões do sul deixam de produzir a uva por causa do frio, a gente não para”. Hespanhol acrescenta que no inverno rigoroso a uva passa por um processe de dormência e não desenvolve. Além disso, a concorrência é baixa.
Esses benefícios associados à regra básica do comércio atingem um resultado expressivo: quando há queda da produção por causa do frio em determinadas regiões do país e a procura continua alta, o produto é valorizado; quando a oferta diminui, o preço aumenta.
Como tudo começou
A ligação de Hespanhol com a uva começou na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), onde ele fez mestrado, doutorado e sonhava trabalhar com fruticultura. Ele fez estágio na Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), em Petrolina, Pernambuco e aperfeiçoou as técnicas de plantio da uva. Ao retornar, aperfeiçoou os trabalhos na propriedade de seu Antônio Brandão. “Depois disso, surgiu a oportunidade de investir na minha própria produção, nas terras da minha família, onde atuo até hoje. Para tanto, foi necessário um investimento aproximado de R$ 70 mil, mas em poucos anos comecei a ter o retorno esperado”, comemorou. Ele afirma que na região não há cultivo de uva orgânica, pois o custo dessa produção é alto. “produzir uva no clima quente e úmido como o nosso favorece a pragas. Não temos nenhum manejo orgânico para controlar essas doenças e ter garantia de produção. Porém, sempre recomendo que o produtor trabalhe com uso mínino de defensivo e faça o controle preventivo, para resultar no mínimo de aplicação desses produtos no ciclo de reprodução da uva. Porém, a fiscalização é escassa”, denuncia o engenheiro agrônomo.
Mercado
Tobias de Souza é comprador de um dos maiores supermercados de Campos. Ele disse que a uva da espécie Niágara rosada que o supermercado comercializa é produzida na propriedade de Antônio Brandão, em Cardoso Moreira, no Norte do estado. Tobias chega a adquirir de 5 a 8 toneladas por mês do produto. Ele explica que a qualidade da fruta é garantida. “Adquirimos uvas de outras variedades do Rio Grande do Sul e até de fora do país, como Chile e Argentina. E a produzida por aqui não perde para nenhuma outra produção”, comemorou. Além disso, continuou Tobias, “o maior benefício da produção em Cardoso é a proximidade, já que a uva é muito perecível; O produtor faz a entrega da uva no mesmo dia da colheita.
Ecoturismo
Até no Ecoturismo a uva tem rendido bons frutos para os produtores. Hespanhol abre, de domingo a domingo, o vinhedo, na propriedade da família dele, no município de São Fidélis, para visitação. Em 2017, mais de 50 pessoas por dia visitaram o espaço. O turista pode colher as uvas, comprá-las por um preço abaixo do mercado, além de fotografar o espaço e guardar o destino na lembrança.Quem deseja visitar o espaço pode pesquisar a página “Viticultura Fazenda Vale do Tabuinha, nas redes sociais.
Fonte: Terceira Via

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